Ter alguém para caminhar mudou o jeito com que eu encarava os caminhos. Eram mais belos, mais coloridos, os detalhes eram mais chamativos. As pedras, recorrentes em estradas de terra, misteriosamente inexistiam naqueles instantes. As bifurcações apareceram, como já se esperava, mas nossas mãos continuavam dadas, pés intactos garantiam os passos firmes.

Mas num tropeço, as mãos foram soltas. E desde então nossos olhos poucas vezes se encontravam olhando para o mesmo ponto, nossos passos não eram tão firmes e as pedras reapareceram. O colorido ficou preto e branco, o céu sempre limpo se nublou, as plantas e animais, sempre presentes, desapareceram. O caminho ficou pesado, maçante, mas algo dentro de mim me dava força suficiente para aguentar os calos, os machucados e a ausência da mão dela na minha. Mas seu olhar, aquele mesmo que me conquistou ao primeiro passo que demos juntos ainda na vila, foi perdido.

Quando uma bifurcação foi vista no horizonte, um sorriso, de lado de boca, vi em seu rosto. E nesta hora percebi que os olhares não mais se cruzavam porque enquanto eu procurava a felicidade em volta, ela procurava a próxima bifurcação. Talvez como desculpa de não mais caminhar ao meu lado, eu não sou uma boa companhia pra caminhadas, admito. Talvez fosse por não mais conseguir andar sobre tantas pedras e pedregulhos. Não cabe a mim julgar o motivo, nem tampouco justificá-lo. Quando os olhos não mais olhavam para a mesma direção, a bifurcação nos separou.

Cabe a mim caminhar em busca do entendimento do que se passou. Voltar ao meu ponto de tropeço e procurar pela pedra culpada foi uma alternativa que pensei, mas que não farei. A causa do tropeço foi a pedra, mas não a culpa. A culpa foi dos meus olhos, que por tanto olhar para frente, observar tudo o que havia ao redor, procurar pelas belezas no caminho e admirar a riqueza do olhar que me acompanhava, havia esquecido das pedras que faziam parte do chão que me apoiava. E por ignorá-las, esqueceu que elas faziam parte do caminho, de mim, da caminhada.

Por um momento paro. Sento debaixo de uma árvore, deito, respiro, e admiro as nuvens entre as aberturas dentre as folhas.

Levanto-me, e retomo o caminho. Desta vez andando mais devagar, observando melhor onde piso, tentando perceber o que havia ignorado, e olhando para baixo daquela serra, com a esperança de revê-la, somente para admirar mais uma vez seu olhar, mesmo que de longe.

Porque importante não é a velocidade com que se anda, mas sim os caminhos em que se pisa.

Bernardo Mendes

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