Archive for novembro, 2012


Este sou eu. Sento em minha poltrona, daquelas de papai. Desde jovem sonhava em ter minha casa, meus objetos, meus carros, minha poltrona de papai. Cabelos grisalhos, marcas da idade. Óculos fundos, marcas da genética. Está de manhã, acabei de tomar café. Pego o jornal, abro, pego o caderno de cultura (sempre começo lendo por ele), leio. Enquanto bebo meu café, meus olhos flutuam sobre as páginas, analisando as imagens e tentando absorver alguma matéria que valha a pena a leitura, enquanto penso no meu passado.

De frente para mim, está ela, Amanda. Linda, como sempre foi. Cabelos brancos, chanelzinho. A muito tempo atrás, seus cabelos eram longos, escuros. Mas seu jeito não mudou, nem sua pele, nem seu sorriso. Só o cabelo mesmo. Ela acabou de recolher a mesa do café e assiste um pouco do noticiário da manhã.

É sábado, aos sábados sempre temos almoço em família. Geralmente em restaurantes, ninguém tem o dom da culinária na nossa família. O pouco que sei, foi de um tempo em que morava sozinho fora do país. Enquanto morava em São Paulo, nunca cozinhei na minha república, com pouquíssimas exceções. Amanda sempre gostou de cozinhar, criava pratos com o que tinha na geladeira, mas sempre foi um pouco chata com comida. A gente acostuma com estas manias com o tempo. Rever os filhos, os netos, dar a benção para eles (sou ateu, mas como meu pai sempre me ensinou que isto era questão de respeito, ensinei meus filhos a pedirem aos seus avós; pelo mesmo motivo, meus netos hoje me pedem a benção também).

O restaurante desta vez é um italiano. O preferido da Amanda. Família italiana, de ambas as partes, dá nisso. Eu sempre gostei da cozinha mineira, mas ela nunca foi minha preferida. Gosto de peixe, mas este hábito perdi com o tempo, já que Amanda não suporta nem o cheiro. Como já disse, acostumamos com estas coisas com o tempo.

A comida está boa. As conversas fluem. Ficar sabendo das conquistas das pessoas que nós amamos nos dão uma força para continuar a vida. Força esta que numa época da minha vida, quando mais jovem, cheio de problemas, hormônios e nenhum dinheiro, faltou.

Mas o tempo me ensinou a lidar com isto, não foi fácil, pra ser sincero, não foi nada fácil mesmo, mas passou. Foi uma época transformadora, de mudanças bruscas, mas foi compensador. Só notei isto quando me aposentei, me lembro até hoje daquele meu primeiro dia como um inapto trabalhista.

O dia estava chuvoso, frio. Tão quanto meus sentimentos. Acordar aquele dia e pensar que dali para frente eu seria um aposentado me deixava assim. Sempre fui energético, bagunceiro, rápido, multifuncional. Daquela manhã para frente, eu seria um velho, aposentado, viajaria com a Amanda para praias e usaria roupas florais.

Bem, era assim que eu pensava. Mas a realidade é bem diferente do que planejamos. Pena que só percebi isto olhando para o passado, e num momento, talvez, tardio.

Mas hoje é sábado. A comida estava maravilhosa. Minhas filhas e netas são as mais lindas do mundo! Meu filho é inteligente, empreendedor, começou um start up logo cedo, no início da universidade, e daí pro sucesso foi um pulo. E lindo, claro, puxou o pai.

Para ser sincero, nunca quis outro homem na família. Aquela ideia de ser o único homem no meio das mulheres da casa, ter que lidar com as infantilidades, as bonecas espalhadas pelo quarto, as horas esperando elas provarem roupas no shopping, sempre me agradou. Bom, o dia em que conheci o primeiro “namoradinho”, não foi como o esperado. Não tenho porte de arma, infelizmente. Mas com cara fechada o recebi na sala, tentei demonstrar simpatia, mas era muito ciúme para esconder. Claro que não foi o primeiro que sentou no sofá que colocou o primeiro anel em uma delas.

Ainda bem.

Bom, estamos a caminho de casa. Neste momento, todos já se despediram. Continuar a ler meu jornal, fazer a Amanda rir um pouco com alguma gracinha, pegar um cineminha a noite, estes são todos os planos que minha aposentaria e minha coluna permitem. Este segundo item é o que manteve nossa relação por tanto tempo. E este deveria ser o segredo que os livros de auto-ajuda sobre relacionamentos deveria ensinar. Eu nunca li um livro deste tipo, mas acho muito pouco provável que você abra um livro e tenha logo na primeira página “O segredo é ser feliz e fazer a outra pessoa feliz. Para isto, seja engraçado, leve, brique, mesmo que a idade não permita.”. Eu deveria escrever um livro sobre isto. Talvez um dia, hoje não.

Meu jornal aberto, Amanda está pintando. Depois de velho ganhamos novos hábitos. Eu me apaixonei por coleções, Amanda por pintura. E ela tem o dom. Em nossa juventude ela gostava de decoração, me lembro até hoje dela me prometer que me ajudaria a arrumar meu quarto para deixá-lo “habitável”. Nunca aconteceu. Ela também nunca parou de reclamar sobre ele, e sempre usou ele como desculpa para proteger meu filho de meus xingamentos sobre o quarto dele, que sempre estava uma zona. Sempre a mesma frase – “Você reclama dele, parece que se esqueceu de como você vivia na Oitoigualadê”. – Sempre previsível nestas horas.

Sobre a oitoigualadê, sobraram lembranças. Amizades, festas, fotos, vídeos, gargalhadas. Histórias que não devem ser contadas, a não ser pra Amanda, que sabe de todas, ou quase todas elas.

[continua…]

Bifurcações

Ter alguém para caminhar mudou o jeito com que eu encarava os caminhos. Eram mais belos, mais coloridos, os detalhes eram mais chamativos. As pedras, recorrentes em estradas de terra, misteriosamente inexistiam naqueles instantes. As bifurcações apareceram, como já se esperava, mas nossas mãos continuavam dadas, pés intactos garantiam os passos firmes.

Mas num tropeço, as mãos foram soltas. E desde então nossos olhos poucas vezes se encontravam olhando para o mesmo ponto, nossos passos não eram tão firmes e as pedras reapareceram. O colorido ficou preto e branco, o céu sempre limpo se nublou, as plantas e animais, sempre presentes, desapareceram. O caminho ficou pesado, maçante, mas algo dentro de mim me dava força suficiente para aguentar os calos, os machucados e a ausência da mão dela na minha. Mas seu olhar, aquele mesmo que me conquistou ao primeiro passo que demos juntos ainda na vila, foi perdido.

Quando uma bifurcação foi vista no horizonte, um sorriso, de lado de boca, vi em seu rosto. E nesta hora percebi que os olhares não mais se cruzavam porque enquanto eu procurava a felicidade em volta, ela procurava a próxima bifurcação. Talvez como desculpa de não mais caminhar ao meu lado, eu não sou uma boa companhia pra caminhadas, admito. Talvez fosse por não mais conseguir andar sobre tantas pedras e pedregulhos. Não cabe a mim julgar o motivo, nem tampouco justificá-lo. Quando os olhos não mais olhavam para a mesma direção, a bifurcação nos separou.

Cabe a mim caminhar em busca do entendimento do que se passou. Voltar ao meu ponto de tropeço e procurar pela pedra culpada foi uma alternativa que pensei, mas que não farei. A causa do tropeço foi a pedra, mas não a culpa. A culpa foi dos meus olhos, que por tanto olhar para frente, observar tudo o que havia ao redor, procurar pelas belezas no caminho e admirar a riqueza do olhar que me acompanhava, havia esquecido das pedras que faziam parte do chão que me apoiava. E por ignorá-las, esqueceu que elas faziam parte do caminho, de mim, da caminhada.

Por um momento paro. Sento debaixo de uma árvore, deito, respiro, e admiro as nuvens entre as aberturas dentre as folhas.

Levanto-me, e retomo o caminho. Desta vez andando mais devagar, observando melhor onde piso, tentando perceber o que havia ignorado, e olhando para baixo daquela serra, com a esperança de revê-la, somente para admirar mais uma vez seu olhar, mesmo que de longe.

Porque importante não é a velocidade com que se anda, mas sim os caminhos em que se pisa.

Bernardo Mendes