Minha mãe tinha feito suco de maracujá. E a essa hora da noite, eu tomaria. Estou pensando demais nela. Liguei a televisão, passei canal por canal, duas vezes, minuciosas vezes, e nada. NADA que me agrade. Nenhum programa que desvie minha atenção, que me faça pensar em algo em que outrora pensaria. Mas não, não tem. Desligo a tv.

Está frio. Não que esteja ventando muito, mas está frio. Vou pro quarto, visto meu pijama. Hoje é terça, estou de férias, são onze da noite, eu não deveria estar vestindo pijama, deveria dormir com esta roupa mesmo, penso comigo, mas mesmo assim, visto o pijama.

Volto ao quintal. Me lembro que na tv não tem nada. E ainda penso nela. Abro a geladeira, pego o suco de maracujá que minha mão fez. Preciso de algo que me acalme, que me reconforte. Que espante o frio, que me abrace, que me esquente. Não, não vou tomar o suco. Vou fazer chá.

Mas do que? Chá preto, chá matte, chá verde, chá de laranja, chá de limão, chá de menta… Bom, escolho Chá Matte. O bom e velho. Procuro a jarra, procuro o açúcar, ponho a água pra ferver, e sento. O vento bate e me lembra ela. Não que eu tenha esquecido, nem que eu tenha parado de pensar. Ela sempre está rondando meus pensamentos pra falar a verdade. Mas por um momento, pensei no chá. Vou pra sala, ligo o notebook, entro na internet. Redes Sociais, Emails, Mensageiros Instantâneos… Não a vejo em nenhum lugar, o que me conforta. Não me sinto, ainda, muito a vontade quando ela está presente, mesmo que de um modo não real. Esqueço da água, corro para ver se ainda resta algo, ou se tudo se foi, evaporou. Por sorte, ainda tem o bastante.

Passo o chá. O jeito com que a água bate na planta seca, como ela se espalha no filtro, e depois simplesmente escorre me fascina. Passo o chá três vezes, como de costume. Uma das minhas manias, uma das várias manias que tenho e que ninguém conhece. Agora você conhece, estranho não? Eu não sei quem é você, e nem você sabe muito bem quem sou eu. Você chegou até aqui por um motivo, o qual eu ficarei desconhecendo. Eu não sei seu nome, eu não sei suas manias. Você sabe meu nome, e você sabe que eu passo o chá três vezes, sempre. Você também não deve saber que eu tenho uma coleção de canecas. Bem, agora sabe. Abro o armarinho da cozinha, e penso qual vou escolher. Pode ser a que tem a foto do centro de Tiradentes, ou a do elvis, ou a que tem escrito HotChocolate e é marrom. Não me decido e pego uma ao fundo, aleatoriamente. Coloco duas colheres de açúcar na caneca, o chá que passei três vezes e misturo.

A caneca é uma das primeiras da minha coleção. É da UFLA, dada por meu pai. É branca, simples. Tamanho normal, alça normal, com o símbolo da universidade estampado. Mas o que importa é o que está dentro dela. Esse líquido ouro, doce, quente. Esse cheiro atrativo, meigo, simples, pouco notável. Pego a caneca e vou pra sala.

Sento no notebook. Abro alguns blogs, uns vlogs, leio algumas coisas. A caneca está pela metade e ela ainda não saiu da minha cabeça. Tanta coisa que fiz e ela não sai da minha cabeça.

O chá acabou, o sono não veio, continua frio. Mesmo aquecido pelo chá, ainda penso nela. Ainda bem que ela não está online.

Talvez devesse ter tomado o suco. Maracujá é bom pra recaídas amorosas?

Bernardo Mendes

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