Já era tarde. Também era sábado. Ele estava alí, sentado, no colchão, ao lado da escada. O chão sujo. Tudo sujo.

O colchão era confortável, mas não no chão. E ele estava alí, sentado. Olhando pra frente, pra cima. Pra janela, grande, que havia a direita. Vía o portão, e a rua. Parada, escura.

Estava alí, sozinho. Tinham pessoas ao seu redor. Mas ele estava alí, sozinho. Seu pensamento estava em outra cidade, não muito longe. Mas estava sozinho.

Abriu a mochila, tirou o caderno, arrancou uma página em branco. E escreveu.

Escreveu tudo que queria falar, mas não podia. Não ligaria pra ela aquela hora. Já era de madruga…

Escreveu, mas nada apagou. Foi uma escrita direta, sem erros. E mesmo que os erros viessem, alí ficariam.

A letra saiu distorcida, obviamente. Estava escuro, de madruga, e ele estava cansado.

Terminou de escrever. Não leu, só a dobrou, de um carinhoso jeito. E a guardou.

Dormiu com um sorriso de canto de boca. Tinha conseguido desabafar em letras e tinta. Tinha conseguido expressar tudo o que queria através de um objeto tão simples, tão…

Se ele soubesse que nunca seria lida…

Bernardo Mendes

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