“E o que denominamos morte, não será a liberação da alma e sua separação do corpo? E essa separação, como dissemos, os que mais se esforçam por alcançá-la e os únicos a consegui-la não são os que se dedicam verdadeiramente à Filosofia, e não consiste toda a atividade dos filósofos na libertação da alma e na sua separação do corpo? Sendo assim, como disse no começo, não seria ridículo preparar-se alguém a vida inteira para viver o mais perto possível da morte, e revoltar-se no instante em que ela chega?”

Sócrates começa a consolar seus discípulos e mostrar a eles que a morte não é um mal, mas um bem, pelo menos para ele, que sempre desejou libertar-se das paixões do corpo e das limitações que os sentidos impõem. E ficam ali dia inteiro, conversando sobre filosofia, até que chega o comissário responsável por anunciar o início da execução. Mas até o comissário se rende à grandeza de Sócrates e, depois de cumprir a sua missão, vira-se e sai chorando. Sócrates, altivo, não sofre nem sombra de abalo:

“O sol já estava quase a desaparecer, pois Sócrates havia ficado lá dentro bastante tempo. Ao vir do banho, sentou-se, porém não conversou muito. Achegou-se-lhe o comissário dos Onze, que lhe disse:

‘Sócrates, de ti não terei de queixar-me como dos outros condenados, que se zangam comigo e começam a me xingar e me amaldiçoar quando os convido a tomar o veneno por determinação superior. No teu caso, pelo contrário, durante todo este tempo e em várias outras oportunidades, pude reconhecer em ti o homem mais nobre, mais delicado e melhor de quantos para aqui têm vindo. Hoje, especialmente, tenho certeza de que não te zangarás comigo, pois sabes muito bem que é dos outros a culpa. E agora, já que ficaste ciente do que vim anunciar-te. Adeus; suporta o inevitável da melhor maneira possível.’ E desatando a chorar, deu as costas e retirou-se.

Sócrates olhou para ele disse:

‘Adeus, também para ti; faremos isso mesmo.’

Depois, voltando-se para o nosso lado:

‘Que homem delicado! Disse. Durante todo este tempo, vinha sempre ver-me e várias vezes conversou comigo. Excelente criatura. Agora mesmo, quanta generosidade revela com esse choro por minha causa! Porém vamos, Críton; obedeçamos-lhe; tragam logo o veneno, se estiver pronto; senão, cuide de prepará-lo o encarregado disso.’

Mas Críton (um discípulo de Sócrates) observou:

‘O que eu acho, Sócrates, é que o sol ainda está por cima das montanhas; não baixou de todo. Só precisa tomar o veneno quando for noite. Sei também que muitos tomaram o veneno bem depois da intimação e de comerem e beberem com fartura; sim, alguns mesmo depois de relações amorosas com quem quisesse. Não te apresses; temos tempo.’

E Sócrates respondeu:

‘É natural, Críton, que esses indivíduos procedessem conforme disseste, por imaginarem que disse lhes adviria alguma vantagem. Mas é também natural não proceder eu dessa maneira, pois não vejo o que posso vir a lucrar em beber o veneno um pouco mais tarde, se não for tornar-me ridículo a meus próprios olhos, por agarrar-me dessa maneira à vida e tentar economizar o que já não existe. Vamos, obedece-me e só faças o que eu digo. Vá buscar o veneno!’

Alguém traz o veneno e Sócrates toma tudo, sem hesitar, em um só gole. Eis o relato:

“Sócrates levou a taça aos lábios e com toda a naturalidade, sem vacilar um nada, bebeu até à última gota. Até esse momento, quase todos tínhamos conseguido reter as lágrimas; porém quando o vimos beber e que havia bebido tudo, ninguém mais aguentou. Eu também não me contive: chorei à lágrima viva. Cobrindo a cabeça, lastimei o meu infortúnio; sim, não era por desgraça que eu chorava, mas a minha própria sorte, por ver de que espécie de amigo me veria privado. Críton levantou-se antes de mim, por não poder reter as lágrimas. Apolodoro, que desde o começo não havia parado de chorar, pôs se a urrar, comovendo seu pranto e lamentações até o íntimo todos os presentes, com exceção do próprio Sócrates.

‘Que é isso, gente incompreensível?’ perguntou Sócrates. ‘Mandei retirar as mulheres, para evitar esses exageros. Sempre soube que só se deve morrer com palavras de bom agouro. Acalmai-vos! Sede homens!’

E depois que os discípulos se acalmaram, Sócrates começou a descrever o efeito do veneno em seu corpo; primeiro as pernas começaram a ficar dormentes e, ao deitar-se, sentiu a barriga esfriar. Disse que quando o veneno chegasse ao coração ele partiria. Então, os discípulos todos se achagaram para perto dele, que já estava deitado e desfalecendo. Foi quando Sócrates se preparou para dizer suas últimas palavras:

“Críton… devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de pagar essa dívida!”

E, em seguida, expirou.

Fédon , de Platão.

Anúncios