Ele era alto. Simpático.

Para cada momento ele tinha uma roupa, uma face, uma personalidade.

E isso o magoava, e muito. Adaptava-se a cada pessoa, a cada jeito, a cada trejeito. A cada horário, a cada circunstância. A cada tempo era um.

Era uma pessoa com várias pessoas dentro de sí, como todos nós. Mas cada encara como quer, esconde como pode, se satisfaz com o que tem a disposição.

Ele, um cara de personalidades fortes, marcantes. Chegou ao ponto de que todas suas personalidades eram reconhecidas. Não importava com qual delas tivesse vestido, era sempre Ele.

E se vestia muito bem com elas. Com todas. Todas se encaixavam sutilmente em seu corpo. Um encaixe perfeito.

O difícil era quando ele encontrava várias pessoas ao mesmo tempo. Para cada uma, uma roupa. Para várias, fazia uma fusão delas.

E dessas fusões nasceu sua personalidade. Sua, só. Única, exclusiva, usual.

Como todos nós, ele construía sua personalidade a cada dia. A cada pessoa que conhecia construía mais um pedaço de sua personalidade. E assim foi…

Até morrer. Morreu de caduquice.

Claro, não dá pra se ter tantas personalidades em uma só pessoa. E era uma pessoa notada, repleta de conhecidos.

Alguns dizem que morreu de alzeimer, afinal ninguém se lembra de tanta gente assim.

Eu ainda acredito na caduquice. Aliás, todos nós temos um pouquinho dele, não?

Bernardo Mendes

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