O chão continuava o mesmo, aquele chão batido. A estrada, cheia de bifurcações. Somente uma coisa mudou nessa minha caminhada: não importava mais os caminhos que tomava, eram sempre agradáveis!

Os descampados que dividiam os caminhos eram da mais bela e verde grama.

Mas estava cansado de andar sozinho. Queria alguém para dividir aquela visão comigo. Alguém que pudesse contar as histórias que tinha aprendido, os segredos de minhas andanças.

Desde aquele piquenique não conversava com ninguém. Me sentia só, a grama era verde, mas era morta. Qual o sentido de ter a felicidade toda a minha frente sem ter com quem dividir?

Então, um notável tempo após minha última parada, vejo alguém andando a minha frente. Corro, mas não alcanço. Corro mais um pouco, e consigo chegar ao lado dela.

Sim, como era grande a felicidade! Tinha alguém do meu lado…

Mas quem era esse alguém? Pra onde ela vinha? Donde ela veio?

Perguntas sobre ela me torneavam. Mas nada me vinha na cabeça para puxar algum assunto, começar alguma conversa.

Então ela disse: Oi! Donde você veio? Pra onde você vai?

Nesse momento entrei em choque. Não sabia o que falar. Começei pelo óbvio.

-Oi! Eu vim de um lugar muito longe, onde a grama não era tão verde como essas que nos rodeia, mas a ausência de bifurcações compensava. Eu vou pra onde minhas escolhas me levam. Durante um bom tempo, andei por caminhos desagradáveis, mas após algumas quedas e tropeços, ajeitei-me e desde então vem sendo agradável meu caminhar. E você?

Ela não respondeu minha pergunta. Mas em compensação, me disse seu nome!

E como era lindo seu nome! Camila.

Eu não sabia nada sobre ela, mas a sensação de ter alguém para dividir aquela vista, era imensamente agradável!

Fizemos algumas escolhas juntos. Seguimos o mesmo caminho diversas vezes.

Mas em uma bifurcação paramos. Eu queria subir, ela descer.

Após uma conversa longa decidimos: subir!

E o caminho subindo era maravilhoso! Mas algo estava estranho com ela. A grama era mais verde. Meus pés não mais doíam, pois a estrada era de terra fofa. Animais se juntaram a nossa caminhada. Mas algo estava incomodando ela.

Me entusiasmei com a vista, com a alegria e com a caminhada! E quando olhei pro lado, ví ela voltando.

– Por quê voltas?

– Não sei.

E ela se foi. Escolheu o oposto. Desceu.

E continuei meu caminho. Alguns animais se juntaram a ela e desceram também. A grama continuou verdíssima por onde eu passava. Mas a terra começou a machucar meus pés novamente.

Não mais a ví. As vezes, quando pego alguma bifurcação que me leva a elevadas planícies, vejo-a lá em baixo, seguindo o seu caminho. E fico feliz.

Bernardo Mendes


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