Este texto não é coerente. Não é politicamente correto. Não é bonitinho. Se não sabe aceitar novos pontos de vista, vá para os poemas.

Basta estar vivo para você correr um grande, um enorme risco. Morrer é inerente à vida. Inegável.

Essa é a realidade de uma região esquecida: o mundo.

Esse crime repugnante do qual me refiro é mais que presente no nosso dia-a-dia. Insisto em dizer: a capacidade humana é tão presente quanto ausente quando se diz respeito ao cuidado à vida. E a contradição também.

O assunto do momento é a queda do avião da Air France, que ia do Rio até a França. Não tinha como ser diferente: ao menos 50 brasileiros morreram nessa viagem. O pior de tudo é escutar diversos possíveis problemas que nos fazem pensar: caramba, a coisa é tão bagunçada assim, tão dependente de felizes coincidênias pra que tudo dê certo! Não viajo mais, nem de pau-de-arara.

Momentos que chegam a ser cômicos são presenciados por quem assiste algum jornal: comandantes reservistas, ex-oficiais do exército dizem trocentas teorias sobre a queda e mais em contradição do que a Gretchen dizendo que é evangélica.

O que quero dizer é que nesse brasil, nesse mundo sem lei, as pessoas esquecidas pedem socorro e as lembradas pedem passagem. As inundações causadas pelas fortes chuvas em Santa Catarina em novembro do ano passado mobilizaram milhões de pessoas, enquanto a mesma tragédia acontece no nordeste brasileiro com – arrisco a dizer – nem 10% da ênfase antes dada pela mídia. Ok, nordestinos são pobres, ignorantes, irrelevantes (oi: essa é a parte que vocês têm que entender que estou sendo sarcástico, óbvio). É a demagogia aceita por mim, por você, por todos. Vende mais defender uma terra próspera do que um bando de miseráveis, negando assim até a nossa própria origem e, por que não, nosso presente.

Outra reportagem diz respeito à prostituição infantil: uma mãe que vende a filha por uma mixaria. O jornalista volta da gravação emocionado. Benza a todos os deuses que não tenho mais oportunidade de assistir ao Jornal Hoje da Sandra Annemberg. A cara dela, provavelmente, deve matar mais do que as inundações e a seca do nordeste, em toda a história.

O que quero realmente dizer é: há alguma segurança em viver?

Em São Paulo pessoas quase morrem atropeladas algumas vezes. De depressão, prefiro nem comentar. No Rio de Janeiro, o que me parece é que o estado (nos dois sentidos que enchergo na palavra) ignora quaisquer aspectos dos direitos humanos. Mas não é minha intenção querer comparar as coisas. A coisa que me agride é que a falta de amor à vida ultrapassa todos os limites quando essa já não é mais a sua.

Com uma visão um pouco mais geral, gostaria que todos se preocupassem com diversos outros aspectos.

Se você é um pai que chora com mortes de Isabela Nardoni, pais da Susane Hitchtofen, derrota do Corinthians, prostituição infantil, se atente a certos detalhes. O seu papel nisso tudo pode ser muito maior do que o aparente.

O mesmo pai de família que se choca com a queda de um avião é o mesmo que não usa cinto de segurança, não faz revisão periódica do carro antes de viajar com a família inteira e perder o controle do carro, matando mais outra família inocente. A mesma mãe que chora ao ver a prostituição infantil é a mesma que não dá a mínima atenção à filha, a mesma que não se importa com o seu rendimento escolar, é a mesma que prefere fingir que não vê o que acontece, desde que isso não seja explicitado – o que a obrigaria a tomar uma atitude que a tiraria de seu conforto.

O mesmo jornalista que anuncia emocionadamente todas essas notícias é o mesmo que escolheria – na falta de notícias que venderiam tanto – divagar sobre o drama do ursinho Knut na Alemanha. É praticamente um Superpop sem pauta. E sem Luciana Gimenez (sic, amém).

Somos um povo que resolve demonstrar seu voto por um Fernando Collor sem histórico e precedentes. A uma pré-candidata até então desconhecida, apenas pelo fato dela ter adquirido um tumor. Nunca um tumor foi tão lucrativo. Sem hipocrisias: se Dilma Roussef não tivesse ficado doente, não teria a mesma intenção de votos que hoje tem.

Continuemos na hipocrisia da informação: a quantidade de notícias relevantes de um dia incrivelmente e milimetricamente caberá na memsa quantidade de páginas todos os dias em um jornal impresso, em um jornal televisionado.

Rezemos pra que o deputado Moraes, que se lixa para a opinião pública, ou para o dono do castelo não contraiam um câncer ou talvez a gripe suína. Ou pra que as filhas dele não sejam jogadas pela janela. Isso os reelegeria para seus cargos. Talvez até teríamos um presidente com um castelo, com todo o perdão à monarquia.

Ou torçamos pra que ninguém mais, sob nenhuma hipótese, em tempo algum, perca um dedo no torno.

Bernardo Mendes

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