Jadir era um craque. O maior jogador em atividade no Brasil. Artilheiro do campeonato, segurava seu time na liderança do torneio. Fazia gol de todo jeito, deixava os adversários atônitos e a torcida, enlouquecida. Com apenas 19 anos, brilhante, parecia dançar com a bola, não havia esforço nenhum em jogar. Era como se a bola fosse um prolongamento do próprio corpo, tamanha a naturalidade com que fazia o que bem entendia com ela. Dava a impressão de que ela o seguia em seus movimentos, e não o contrário. Só de vê-lo jogar, os espectadores sentiam a mesma alegria que ele sentia no gramado. Era único no que sabia fazer. Já tinha propostas da Itália, Espanha e Inglaterra para quando a competição acabasse. Mas, de repente, algo aconteceu.

Começou a treinar morosamente, chegar atrasado, sempre com sono, não se alimentava direito. Não demonstrava nem de longe o vigor e o entusiasmo que sempre carregava consigo em qualquer tipo de treinamento: físico, musculação, com bola e sem bola. Nos coletivos, ficava apagado. Disputou dois jogos do campeonato nesse estado. Foi como se não tivesse entrado em campo. Perderam ambas as partidas. Agora, na reta final, seu time estava ameaçado.A imprensa descia a lenha, falava (sem provas) de abuso da noite, de bebida, de corpo mole para ir jogar na Europa antes do contrato acabar. Zécardoso (sim, assim tudo junto mesmo), o técnico, estava ficando maluco.

Chamou Jadir para uma conversa. O artilheiro disse que não era nada, bobagem sem importância. Somente uma fase ruim. Todo jogador tinha uma fase ruim, não tinha? Pois então, a dele era agora. “Vou me recuperar, prometo”, com essa frase, que na prática não queria dizer muita coisa, acabou o diálogo dos dois. Porém, Zécardoso não engoliu aquela história e permaneceu aflito. O rapaz estava estranho demais. Contou tudo a sua mulher, em casa, de noite, enquanto jantavam. “Você é burro mesmo, Zé. Não percebe? O menino está apaixonado”. Foi o que Glorinha disse após ouvi-lo desfiar minuciosamente toda a novela. “Será possível?”, disse Zé. Resolveu agir.

No dia seguinte, logo na parte da manhã, levou Jadir para um canto e fuzilou, sem rodeios: “Você está apaixonado e não está sendo correspondido, por isso essa moleza, esse desânimo todo”. “Como você sabe?”, retrucou o jogador. “Sou muito observador, rapaz. Um bom técnico deve ser um psicólogo também”, gabou-se o outro, sem sequer mencionar a ajuda providencial de Glorinha no caso. “Conte-me tudo, que vamos resolver isso”, ordenou.

Então Jadir começou a falar. Ao contrário do que todos poderiam imaginar graças à fama, ao dinheiro e ao histórico de jogadores de futebol, a moça por quem Jadir estava apaixonado não era uma atriz famosa ou uma modelo internacional. Ela trabalhava numa banca de jornal na esquina da casa dele. Luana era o nome dela. Tinha 17 anos e ajudava a mãe na banca logo pela manhã e depois ia à escola. Ele contou que, no último mês, comprara 96 revistas e jornais diferentes. Ela se fazia de desentendida e Jadir, pela primeira vez desde que se tornara um boleiro famoso, ficava inseguro para convidá-la para sair.O caso era sério.

Zécardoso pensou rápido e propôs o seguinte: “Olha, Jadir, falta uma vitória para sermos matematicamente campeões. E temos um clássico no próximo domingo. Você deve usar isso para conquistar de vez essa moça. Ela sabe que você a quer, mas está esperando que você tome uma atitude ousada. Tenho a ideia perfeita. Mas, para isso funcionar, você tem que se esforçar e meter gol nos caras”. Jadir era todo ouvidos.

Explicou que fariam uma surpresa para Luana em seu próprio terreno: no jornal. Quem, tirando os jornalistas, são as primeiras pessoas a ver a edição do dia? As pessoas que cuidam das bancas, é claro. Portanto, a declaração de amor de Jadir sairia na primeira página de todos os jornais do país. Era simples: ele entraria em campo com uma camiseta por baixo da camisa do time, com uma mensagem estampada em letras grandes para a Luana. Aí, era só fazer gol e mostrar pro mundo todo. Sendo campeão, com certeza a foto estamparia a primeira página de tudo quanto é jornal. “Imagina a cara dela quando se deparar com a declaração logo cedinho, ao entregarem o jornal na banca? Se tudo der certo, você nem precisa aparecer na festa de celebração do time na segunda, pode passar a noite toda com ela”, incentivou o entusiasmado Zécardoso.

Chegou o domingo e Jadir nem tomou conhecimento do adversário. Fez o diabo em campo. Marcou três gols e por três vezes mostrou a camiseta com a mensagem para a Luana. O time sagrou-se campeão. Na segunda-feira à noite o elenco se reuniu numa churrascaria para comemorar o título. Jadir não apareceu. Todo mundo estranhou a ausência dele, menos o satisfeito Zécardoso, que parecia celebrar algo mais do que apenas um troféu. Mal sabia ele da verdade.

Luana não lia os jornais matinais. Não gostava de futebol. Nem sequer ligava para Jadir. Gostava dele somente como um comprador de jornais compussivo.

Jadir abandonou o futebol por um tempo. Não fora no churrasco porque não ganhara o que queria realmente. Descobriu da pior forma a verdade.

Jadir aprendeu que o amor é cruel. Ficou por um tempo desfrutando de sua pequena furtuna futebolística. Viajou pelo mundo, conheçeu novas pessoas, novos ares, novos amores.

Um desses amores o prendeu em um país distante. Ninguém sabe onde ele está. Um tablóide mostrou-o em uma pequena mansão na Dinamarca.

Estava acompanhado de duas morenas, lindas e lésbicas.

Ele vive feliz, pelo-menos.

Bernardo Mendes. (Nota do Autor: começei a pensar nessa história na aula de português hoje. Não resisti e a escreví no bloco de notas, agora passo ela pra vocês.)

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