Nada muda
Tudo continua

A rua, a casa, o caminho
Os automóveis passando
A fumaça que a gente já nem sente mais

Um homem morre
muitos outros despertam

Crianças correm
Crianças crescem
Crianças morrem, triste

Pessoas se perdem
Choram, gargalham, suspiram, amam, desencantam
Choram

Os dígitos mudam
Bailam as cifras numa bela valsa financeira

O capitalismo corrói
A pessoa se perde
Se encontra

Muito diferente

Pássaros voam entre os fios elétricos
Que cortam um despercebido céu
Azul cinzento
Cinzento azul,

Talvez

Olhos de encontro
Olhos de reencontro
Olhos de despedida

Pais, irmãos, avós
Mães, sobrinhos, primos
Namoradas e maridos

A multidão marcha
Pisando em chão, pedras
Folhas secas e flores vermelhas
Ruas de terra batida
Gramas mal cuidadas
Ruas asfaltadas

O relógio gira, lentamente feroz
O sol nasce, as estrelas surgem
A lua vem avisar que o dia chegou ao fim
Ou acabou de começar

Nunca se sabe o que realmente é
Ou o que foi

Músicas permeiam as brisas
Um tiro ou uma batida
Um choro
Quebra o silêncio

Alguém grita, reza, sussurra
Ninguém ouve

Ele se fecha
O mundo não dá valor no belo
No imperfeito

Perfeições imperfeitas
Feitas com computação gráfica
O mundo é manipulado

A menina não mais sonha
Os sonhos são todos iguais
Manipulados por não se sabe quem
Só se sabe que é

O crepúsculo chega
Pra finalizar mais um dia de sonhos

Sonhos iguais

A noite pisca cheia de ilusão e prazer
Prazer desprazeroso
Ilusões de amor
Amores não correspondidos

Amores cruéis
Amores falsos, inpetuosos

Ele chora
Ela sorrí

Ele pensa
Ela age

Ele escreve como quem fala
E não diz absolutamente nada

Ela não lê

Ninguém lê

Pensamentos guardados
Nunca mostrados

Nada muda
Tudo continua

Tudo muda
Mas continua na mesma
mesmíssima
Merda.

Bernardo Mendes

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